sábado, 24 de dezembro de 2011

Sacana

Você move-se despretensiosamente pelo via expressa imaginando estar sozinha nessa multidão que se come com os olhos e mãos famintas, mas não olha pro lado para notar o meu sorriso tímido e indelicado quando vejo a sua pele corar ao ouvir os contos sórdidos das muitas mulheres que prendem o meu gozo na garganta e gemem para ascender as luzes da cidade.

Faz um tempo que eu noto seu jeito tão discreto de caminhar pelas ruas que eu não ando, parecendo uma mulher a mais nesse meio de intelectuais castos, que se divertem julgando os que tem trepam na escada e assim como eu fazem um carnaval na primeira sala escura que encontram. Parece que teme ser confundida com as putas e freiras que passeiam pela órbita de meu ser tão mesquinho e evita deitar na minha cama de pregos com tanta frequência, que duvido de tuas intenções quando no escuro dos teus medos chama baixinho meu nome e implora meus abraços.

Eu sei que mesmo sem me ver sua mente ora para que algum Deus bondoso lhe traga na brisa meus sussurros tão inconvenientes que lhe lembram do mundo que está a sua espera quando voltar pros braços mornos do teu marinheiro tatuado. Já que não sou teu macho nas horas do aperto, advirto que não deve se sentir tão a vontade com os meus encantos profanos, pois amanhecerá com as coxas úmidas de vontade não concretizada.

Você parece pra mim tão superior, como se procurasse em cada esquina algo a mais para entorpecer a dor que repousa em seu peito, mas que não se vende pra qualquer burguês numa barraca de cachorro quente. Ouso gritar que teu corpo é de meretriz, mas tua alma é de alguma coisa mediana, entre a mulher que me faz arder de vontade e aquela que se encoleira por tão pouco.

O que me comove é que no fim das contas sou aquele que resta para consolar teus sonhos frustrados e é no meu braço que encontra o abrigo verdadeiro, que sou eu aquele que desenhou o mapa do teu copo de pecado e sei sem olhar explorar só com a ponta dos dedos nus cada centímetro de prazer que escorre de você. Eu sou aquilo que sempre está disposto a devorar teus medos e tudo mais que quiser me dar. Sou eu aquilo que mais te intimida e mais te aguça, mas por fim você nem imagina que eu pertenço a outros loucos braços e que deixo repousando em você, apenas meu apego amigo e o tempo que jamais tive contigo.

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