terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A morte

A dama de negro dança sua valsa sinistra no salão, enquanto o povo aplaude a despedida mágica de outra pequena dama clara, que se foi num suspiro quase silencioso. Me disseram que era para trazer os lírios, que são as flores que mais caem bem nessa época, mas preferi vir ao baile com as mãos abanando, pois não sou nem de derramar saudade e nem de presentear com aquilo que não vai entrar no céu, prefiro mais poetizar a minha dor e transformar em verbo o que meus olhos inchados falam abertamente.

Acabou a graça dos cigarros e as inconformidades presentes em todo meu intragável ser, já que confrontei o fim de quem era tão presente nessa hora da madrugada, mesmo que fossem seus devaneios espirituosos ou em seus pedidos sedentos por alguma atenção que lhe clareasse a vista tão cansada. Mas nesse momento ela e eu repousamos no silencioso inicio de quarta feira.

Nem mais o tesão que tanto me esbaldo e que preenche bem mais as lacunas de meus textos quase sempre confortáveis, posso dispor esta noite, já que sinceramente nem o desejo do sexo, nem as bundas mais belas ou menos outros artifícios podem melhorar a dor que se tem quando a tampa fecha suas memórias e o carro leva embora as melhores estórias que já foram contadas. As coroas de flores que adornam o caminho e as outras fotos que vão me apavorar nesta noite, nem elas podem configurar a dor de ver uma caixa tão grande para um ser humano de dimensões complexas, sendo ele tantas pessoas ao mesmo tempo, não ser maior que eu, que sou apenas mediano.

Poderia me alongar aqui por horas e palavras, pois a dor justificada me permite ser tão lúdico quanto eu desejar, mas hoje é um dia diferente e todos temos que descansar, os vivos e os imortais. Descanse em paz, Dona Iva.
1904*2012

Um comentário:

  1. Dona Iva, por pouco não te conheci estava pensando em cantar para a sr. aquela música:
    Oh jardineira por que estás tão triste?!
    Mas o que foi que te aconteceu?
    Foi a Camélia que caiu do galho?
    Deu dois suspiros e depois morreu...
    Oh vem jardineira! Vem meu amor.
    Não fiques triste que este mundo é todo seu.
    Tú és muito mais bonita
    Que a camélia que morreu.
    Eu canto agora baixinho pensando na formosa jardineira, a dama clara que jamais abandonará o o seu jardim, embora morta a camélia, a tão querida camélia, ela estará sempre presente vivificando seu jardim; no orvalho, nos ventos, nas folhas, nas cores, no perfume, nos galhos, nos troncos, nas raises e na terra.
    Toda noite jardineira, olharás da lua o seu jardim; e ele estará brilhando em silêncio no frescor da madrugada. Ao amanhecer verás do sol seu jardim vibrando de alegria e saberás jardineira... Saberás que este mundo é todo seu. Por que tú és muito! Muito mais bonita do que a camélia que morreu.

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