quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O herege

Existe um momento na vida de cada homem que lhe é apresentada a ideia que a ponta de seu membro rígido pode segurar o mundo e todas as coisas serão resumidas ao prazer que ele irá obter ou ao estrago surpreende que ele poderá a vir causar quando a vida lhe der as costas e ele puder lhe invadir as nádegas e sem pudor nenhum botar pra foder. É uma questão de fé, afinal Deus é o pai e Senhor e em sua literatura conhecida diz-se que  é no varão em que se deve depositar a confiança de guiar a família e nele residirá o nome, história e o orgulho de seu pai, um varão como ele.

Não há para mim, que sou homem e carrego comigo um pau, maior vergonha que admitir que vivo num mundo onde tudo se mede apenas pelo tamanho e pela fama entre as mulheres ou entre os homens que você fode, por que quem tem um pau, tem que foder e ele pode ser de borracha, já que existem mulheres que são tão homens quanto eu. Não importa, se você aceita que tem um pau, seja de carne ou artificial, sua vida vai ser medida por quanto e como você fode e isso é o maior status de um homem, O comedor.

As mulheres são obviamente usadas nesse processo, mas são também a maior força dessa religião ridícula, afinal de contas, são elas que procuram em desejo os homens que mostram sua força em tatuagens, músculos e até uma leve arrogância. Aceitam serem presas ao sistema e algumas aceitam até o cárcere em casa enquanto os hereges, que preferem tratar com respeito e carícias, são deixados de lado. Para toda mulher que sofre por um homem cafajeste, tem uma ensinando um homem bom a ser sacana. Assim se converte as pessoas na religião do pau e em breve nem mais haverão hereges, pois não tem graça ficar sentado bebendo e pensando por que sofrer... A verdade é que é mais legal gozar e acender um cigarro.

Este texto se chama herege, pois ele seria como um testemunho de alguém contra essa religião, mas honestamente eu sou apenas um protestante, reclamo da estrutura mas sigo o mesmo livro, mudando apenas alguns versos e pondo outros aparentemente menos conservadores. Mas conheço alguns hereges, que não aceitam de fato de ver um mundo se ajoelhar e crer que do pau virá o pão e o leite que lhes encherá a boca e dará fim a sede de atenção que existe no mundo. Algumas pessoas não conseguem aceitar que para se ser feliz precisa-se de ter um pau no meio e para todos esses eu deixo registrado meu apreço e minha pena, já que num mundo onde tudo provém do macho e para ser provedor você tem que mutilar seu gênero e aceitar certos abusos.

Eu diria até que a vida pro macho seria fácil, afinal o mundo segue sua ordem, mas nesse mundo de cobras a unica e triste verdade é que se existe um vencedor, ele está só acompanhado apenas de um pau murcho e insignificante, diante da grandeza do resto.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A morte

A dama de negro dança sua valsa sinistra no salão, enquanto o povo aplaude a despedida mágica de outra pequena dama clara, que se foi num suspiro quase silencioso. Me disseram que era para trazer os lírios, que são as flores que mais caem bem nessa época, mas preferi vir ao baile com as mãos abanando, pois não sou nem de derramar saudade e nem de presentear com aquilo que não vai entrar no céu, prefiro mais poetizar a minha dor e transformar em verbo o que meus olhos inchados falam abertamente.

Acabou a graça dos cigarros e as inconformidades presentes em todo meu intragável ser, já que confrontei o fim de quem era tão presente nessa hora da madrugada, mesmo que fossem seus devaneios espirituosos ou em seus pedidos sedentos por alguma atenção que lhe clareasse a vista tão cansada. Mas nesse momento ela e eu repousamos no silencioso inicio de quarta feira.

Nem mais o tesão que tanto me esbaldo e que preenche bem mais as lacunas de meus textos quase sempre confortáveis, posso dispor esta noite, já que sinceramente nem o desejo do sexo, nem as bundas mais belas ou menos outros artifícios podem melhorar a dor que se tem quando a tampa fecha suas memórias e o carro leva embora as melhores estórias que já foram contadas. As coroas de flores que adornam o caminho e as outras fotos que vão me apavorar nesta noite, nem elas podem configurar a dor de ver uma caixa tão grande para um ser humano de dimensões complexas, sendo ele tantas pessoas ao mesmo tempo, não ser maior que eu, que sou apenas mediano.

Poderia me alongar aqui por horas e palavras, pois a dor justificada me permite ser tão lúdico quanto eu desejar, mas hoje é um dia diferente e todos temos que descansar, os vivos e os imortais. Descanse em paz, Dona Iva.
1904*2012