quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Dia de finados

Sejam bem vindos ao meu velório de corpo presente e peço que bebam mais uma vez do meu sangue, seus vampiros. Se bem me lembro do ódio que irriga minha carne e sustenta meu corpo, todos vocês aqui, sem exceção dele já bebericaram, talvez por compartilharem a minha doença que destruiu minha juventude como um câncer bem alojado na minha coluna cervical, me deixando primeiramente paralítico ante a doença em si e depois me negando os mais doces desejos carnais, para que terminasse me mantendo em cárcere dentro de meu próprio quarto, com meu pau na mão e assistindo a despedida repetida daquelas que eu amaria se ficassem um pouco mais em minha vida.

Seus rostos nublam a paz de transcender, pois cada um de vocês está impregnado com o mesmo nome que o meu, nos tornando família e ao mesmo tempo deturpando esse sentido de parentesco para uma tortura enebriante dos meus sentidos. Sem saber o que sou, me confundo em suas suspeitas sobre minha sexualidade ou sobre os abusos que cometi ou não aos tantos jovens que em minha vida passaram. As drogas que segundo vocês eu consumo, não me entorpecem mais, talvez por que nem mesmo a ilusão do vício pode me trazer paz notória. Sou o mal falado dentre todos vocês, pela boca do meu caçula ouço apenas que sou vagabundo, preguiçoso ou até mesmo um fodido qualquer. Da progenitora, que se vangloria de meus fracassos e aplaude hoje seus cinquenta anos de maldição, apenas ouvi ameças e fracas acusações de feitos tão impróprios.

Bem, agora estou morto, mas ainda sinto em mim a sujeira do nome que compartilhamos e a doença que ele nos traz, pois bem vejo diante do véu que cai, suas podres melancolias expostas e seus passados com prostitutas, viciados e agiotas, tudo isso enfeitado de loucos esquizofrênicos que humildemente morrem sem ter nenhum amparo de seus irmãos, atropelados na sarjeta úmida ou abandonados num asilo.

Em tempos mais áureos nos reuníamos juntos em baixo de um pé de carambola e contávamos histórias, mas nem isso temos mais, pois vendemos tudo que temos por não progredir e nem elaborar melhor seus próprios desejos. Somos vitimados do fracasso de um escravo liberto e uma jovem tola, que deu origem a uma geração tão torpe que me envergonha com todos seus planos medíocres e suas palavras gastas.

Morro temeroso, pois se carregar em minha lápide qualquer menção dos meus antepassados, prefiro fazer como um tio meu e sumir indigente.