Mais um copo de alguma coisa doce, parece vodca com frutas, mas na verdade é só mais um dos anestésicos que eu tomo para fingir que não ligo. O quarto está escuro, tirando a luz que nunca se apaga do outro lado da rua e esses mil vagalumes que alguém escondeu para me lembrar de dias de primavera, onde não havia nada errado e os segredos ainda estavam verdes demais para ocasionalmente tornarem-se mentiras emolduradas. Tudo era diferente. Meu quarto, teu beijo e os poemas, tudo parecia ter mais vida, mas alguém esqueceu de dizer sobre o inverno e a maturidade que temos que ter. Alguém esqueceu de contar sobre a culpa e os fantasmas, que vem e vão enquanto mais corpos nus efeitam a sua rua.
Era uma piada que te fazia rir ou um texto que lhe deixava corada e eu não era um qualquer vulgar, mas algo entre o Don Juan e um cavalheiro vestido em metal reluzente, que estava diante do armagedom para salvar você antes do último suspiro, até que você olhou pro lado e viu que era carne e fiasco que recobriam meus sonhos, desistindo então daquilo que lhe dava sentido nas noites de lua cheia. Chegamos a embalar vidas em seu ventre e enganar os grandes mestres disso e daquilo, mas nem isso significou alguma coisa quando o acidente se assombrou.
Dou outro gole nesse mordaz companheiro enquanto você está ai, distante com seus amigos, rindo ou chorando, ainda não sei bem. Das suas novidades eu não ouço nada e dos seus sonhos, sei apenas de medos que eu tantas vezes afugentei com minha mão mesmo. E dos outros, desses eu não sei mais nada, por que então me perguntar se um dia vamos estar na mesma mesa, diante de nosso pecado?
Felicidade é outro feitiço para me sentir mais culpado com tudo que não acabou para nós, mas o que importa é que ainda há o outro dia e mesmo essa cara amarrada no espelho vai melhorar quando chegarem os presentes e os amigos, pois é dia de apagar o passado, as velas e começar a reinventar um novo lugar para se estar.